fragmentação

•Agosto 29, 2010 • 1 Comentário

 

 

 

 

uma chama ilude o horizonte sobre a água.

o que se faz com isto, perguntaste.

foi aí que comecei a escrever o mundo com a luz apagada.

a manhã revolvia-se de imprecisos movimentos

a gemer como um animal cego

quando os abandona  a sorte ou um plano mal traçado.

de todos os sinais que a psicologia me ensinou

como se a vida fosse matemática simples ou uma qualquer regra

algum me conduziu à salvação.

assim, devagar, aprendi a soletrar a morte

sem a crença dos profetas

um fumo lento vai espartilhando o pulmão

e fica-se à espera. a morte há-de chegar.

 sei hoje que podemos morrer de amor

é simples: bastam as letras de um só nome

e  a brutal sede de um deserto .

ft: roberto c

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decifrar os nomes

•Julho 17, 2010 • 1 Comentário

 

 

 

 É provável que coisas improváveis aconteçam.”

Aristóteles

 

 

um dia, quando tiver a idade dos séculos

e a sabedoria dos deuses

hei-de sonhar uma palavra

para expiar os desertos do amor.

então, talvez saiba explicar as coisas que envelhecem

contra a noite

e os pássaros mortos

que se recolhem nas nossas mãos.

 

tela: ana mendietta

ha ver o mar

•Junho 4, 2010 • Deixe um Comentário

 

 

havia luz amarrada à margem.

e  um diálogo desde as asas das gaivotas.

um pio.   ao longe.    e um relâmpago

                        surdo      surdo

noite  no repouso do teu corpo.

a eternidade entranhava-se nas minhas mãos desprevenidas

giestas verdes     de fogo.

ft: mariah

cruzamentos de água

•Maio 22, 2010 • Deixe um Comentário

 

 

 

(…)

hoje cerco-me de água.

algoz é a sílaba que transpõe a margem

onde morreu o teu nome.

dento da luz deste instante

só a lucidez  fere o pastor do mar.

 

ft: c. salgueiro

… _____ ainda há goivos e anémonas

•Abril 12, 2010 • 6 comentários

 

” cheguei há pouco do amor(cidade de gaivotas loucas e luzes cegas).”

João Luís Barreto Guimarães

    ….  _______________

quantas vezes se diz  adeus?!    senta  .se na incerteza de um lenço sob este azul magoado  .

 a cidade estremece à voz do barqueiro.  sobre  a terra  o sol crepita lentamente o último sono  . há vozes que chegam da lonjura do olhar  . parecem domesticadas como os gatos  que  se acostam ao gesto distraído do dono.  . a tarde faz  .se devagar sobre a sua  pele veste  .se da hegemonia da luz  e carrega  as palavras de um livro pousado  ao acaso  sobre a mesa.

 a varanda  é feita de poentes onde a água treme  ao soluço dos naufrágios  . a buganvília não floriu  .talvez a fome a desbaste até à extremidade da raiz  .talvez o sódio das paredes se entranhe pelo caule  . mas há goivos e anémonas ateados a sílabas antigas  .de um fulgor absoluto  .passa um pássaro atravessado de luz  .desmesurado e excessivo na boca do sol  . acerta o olhar sobre o tempo dos barcos  .  do mistério nunca desvendado da canção dos búzios e adormece  nos ponteiros da tarde  .

um desvario de asas agiganta  .a  de espanto  . pouco a pouco  percebe  . a nudez inocente do azul é engolida ao pronunciar da sombra  . entra. já não há livros para escrever  . dói  .lhe a casa na palidez do branco  . a gata permanece imóvel à habituação das mãos  . finge a serenidade dos lugares desprovidos de paixão  .

quantas vezes um lenço se agita à janela da alma?!… ao regresso alarmado dos pássaros   recomeça a escrever… e os goivos  estremecem desde o chão  .

 

palavras convergentes

•Março 26, 2010 • Deixe um Comentário

 

… e  são tristes as aves na claridade das águas.

“se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,

escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.

não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,

insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.

e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,

como se o amor fosse sobreviver às veias paradas do sangue.”

 Vasco Gato in “Um Mover de Mão”

 

ft: madalina i

da gramática dos exílios

•Março 20, 2010 • Deixe um Comentário

 

  ” ao longe, correndo para a primeira luz do dia,

estarei à tua espera, acenando com a mão esquerda,

avançando sobre o mar.

não te esqueças,

aprendi um dia como deus nos traz um sono

leve que nos cega.”

Rui Coias

 

 

que chão elucida o caminho de antigos fascínios? que rumor nocturno me ascende  ao nome sem rosto na garganta da noite? assim me rendo. sem rendas. nem refúgio. que o noite é caos pressentido à boca da lucidez .  na ponta dos dedos a palavra é um sismo. onde te abrigas. sequestro de sílabas e fonemas no paradoxo do sono. e assim morremos diante das pálpebras reféns de um relâmpago. no equivoco que antecede as tempestade. morremos sem nome . inocentemente perdidos na cegueira do erro.

 caminho  agora sobre um sódio de silêncio. as mãos estendidas ao longo do corpo. pouco a pouco apercebo-me das falésias que me são latitude e paralelo. também vertigem onde a dor se acomoda como a lava ao ventre da terra.

adio a derradeira viagem . a que me será casa. interir. definitavente pedra   lentamente  recolho o tumulto de todos os poemas. poemas de verbo crescente. os que falam de amor a conjugar-se em todos os tempos. aceito as preposições que me vão drenando o veneno do corpo.

 a jusante  um barco. e uma mulher. irreversivelmente  inclinada.

 

foto: angela bacon.kidwell