adormeço o vento

•Fevereiro 28, 2010 • Deixe um Comentário

 

 

 

o dia afoga-se, lentamente, na treva do mar”

Al   Berto

 

quando acordam  as ruas

despe o  manto de orvalho

[legado de água

das noites mais brandas.

veste-se no consentimento do  sorriso

 na tremura mais doce

que lhe sagrou o pólen nos olhos

para atravessar a dúvida na permanência  dos dias.

não sabe o nome das flores

que lhe tocaram o corpo

esse mapa de viagem

 migração de limbos no odor da pele

essa ferida que se ousa com a luz

 e calça-se da inocência das manhãs

[ para nascer.

do voo enlouquecido dos pássaros

dos lugares extasiados no clamor das sílabas:

uma língua quente

e um rosto  batido de asas.

então acende a cidade

ao substantivo do poema

que lhe crescera nos seios

até encandear os crepúsculos.

prende o enigma do silêncio à sua sombra

recolhe as pétalas de um  incêndio

na alucinada visão do sol

e prepara-se  para o engano das estrelas

no grande isolamento da noite.

foto: mirror

o voo e a solidão dos pássaros…

•Fevereiro 11, 2010 • Deixe um Comentário

    

______ … a @eu

 

 

dissera   .lhe:

desliza as tuas asas sobre os ombros.

hoje a noite é uma emboscada de sombras

um  perfil  de chão escrito a carvão.

mas há o céu. um pulso aberto ao aditamento  do azul

e um instante. o lugar mais aceso do silêncio

onde a palavra  cresce.

o que há de inconfesso no teu voo?

uma rota armadilhada

ou um ventre de vento onde estala a tempestade?

e morder o tempo

adormecer o rosto arranhado de naufrágio

para devastar o frio

despentear o sangue onde os dentes do destino penetraram.

___ esta viagem é feita de lâminas

de tambores de guerras

fábulas esquecidas.

dissera  .lhe:

desliza as tuas asas sobre os ombros.

escava o lado do silêncio mais aceso

para sentir nas veias o coração silencioso dos pássaros:

os olhos tranquilos na metamorfose das águas.

foto: miguel marques

(des)esperar o esquecimento

•Janeiro 29, 2010 • 3 comentários

 

… e já não sei escrever-nos como asa. apenas sustento o olhar.

uma visão coincidente com o fragmento dos passos.

 

pouco a pouco    saberei que o silêncio    

é a chave que me ajusta o corpo à alma…

 

deixo-me tocar pelo  ombro mais brando da noite. uma voz antiga  de lua mansa treme recolhida junto aos olhos. há um lugar onde sobrevive o vício do olhar. breve  o gesto que desenha um caminho para o mar. recolho-te.  sobrevivente.  como os rumores mais longínquos que relembram o nome das coisas que (des) esperam o esquecimento. um  verbo antiquíssimo  paira ainda sobre os lábios.  cúmplice   como a noite   na antagónica luminescência das estrelas a povoar a incerteza das palavras.

nunca me disseste como se despem as árvores. como se transita entre o sangue e o nevoeiro. ou se sobrevive com a noite como símbolo  enlouquecido de  marés. nunca me disseste. talvez o dizeres-te seja o avesso  queimado das esquinas das mãos. talvez as tuas mãos nervosas se afundem na sangria da memória.

 vislumbro-te. breves aparições que esquartejam o sossego dos pulmões.  e doem-me os teus olhos sem navio. transitórios   como  areias suicidárias de deserto…

 e surpreendo-me com as escarpas que ainda existem no meu corpo.

 

foto: retirada da net. autor desconhecido

amanhã na orla das dunas…

•Dezembro 31, 2009 • 3 comentários

  

  na imobilidade todos os caminhos do mar ficarão ocultos.

 

escrevo o acerbo das horas finais. chove.   cego   o vento troveja com a fúria frenética de quem dança a um qualquer deus sem memória.   a noite funde-se  fora do entendimento de um relâmpago.   já não te procuro quando o corpo se dobra sobre um chão de antigo  incêndio  onde se formulam as perguntas.   só os lobos uivam ao rosto de uma lua.   e tudo se ergue atravessado de décadas e desertos. noite após noite. o que dissemos e o que ficou por dizer.    esse chamamento de paredes onde a voz se afoga em superfície branca.  tão branca como um palco invisível onde os monólogos são  ruído alucinante.

que espécie de lume resta ainda do teu rosto exausto? vejo-te o corpo.    um balanço débil ao capricho de um vento que já mal distingues.  junto de ti  uma água de esquecimento.  um fruto que não  soubeste  e te cabia  nas  mãos. ____ recebeste o que tinhas esperado quando te inclinaste sobre os verbos duvidosos desse pássaro nocturno? a luz sorveu a treva  da tua alma de gume?…lembro-te em apelo no meu corpo e uma rosa muda estende à minha língua  a geografia das sombras.

escrevo o acerbo das horas finais.  e chove. o vento troveja com a fúria frenética de quem dança a um qualquer deus sem memória.   e amanhã   amanhã vou evocar-te  junto ao mar. no fulgor da manhã e no sal que ficou a vingar o teu nome sem pátria.

__  uma dor de sílabas vazias. só amanhã  uma última canção na saliva proibida.

 hoje    só hoje  venho dormir junto de ti.

 

foto: c. vicente

em dezembro

•Dezembro 24, 2009 • Deixe um Comentário

 

 como as estrelas duplas

um sorriso que se adentre

de bússolas

 

NATAL DE LUZ

a têmpora do silêncio

•Dezembro 6, 2009 • Deixe um Comentário

  

  

rente ao chão a sombra é uma carne curva 

indecisa cicatriz em precário equilíbrio. 

sabemos do lume 

espessa lava derramada 

sobre a pele. 

___  errância volátil das mãos. 

e de uma cama de seda 

consumida em tempo de luas. 

sabemos do amor 

precipício  de bocas onde as almas se afogam 

da chama que agudiza os violinos 

no orgasmo das águas. 

  

sabemos da morte 

___ o festim dos abutres 

a febre que dói de bicadas a pique. 

sabemos 

 ___ tu também 

que este silêncio 

[vermelho 

é a furibunda mutilação dos pássaros. 

ft: c.vicente

re.conjugar a noite

•Novembro 15, 2009 • Deixe um Comentário

 

el paso

__________   recolho a luz  embaciada de outras luas

 

 

confesso-te um lugar que ainda existe.  irremediavelmente condenado no corpo da noite.  os dias vão tecendo estiletes de agonia sobre as águas  na esperança que um qualquer vento a oriente dite o rumo dos mastros.  vou escrevendo.   sombras e reflexos que a pele respira.   o leste do brilho das estrelas em noite de lua mais clara  as mãos dóceis como abrigo temporário de raízes.    a  ausência de ti  vai dissolvendo a mística do sentir.   aquele corpo que albergou a  música que fomos é só o sítio onde o calendário  se cumpre.   sacrificial.   face e altar onde os sonhos se imolam antes de chegar à escarpa da alma.  às vezes escrevo como quem respira.  um pulmão incandescente que acende a noite.   como um relâmpago. ou como as refulgentes faúlhas quando as nossas bocas se uniam.  é uma força centrípeta que me afasta dos precipícios por instantes e me devolve a uma terra de silêncio.  recolho então os sinais breves da periferia do fogo e faço um juramento de sangue com a noite.  assim amanheço. flor breve e absoluta de sossego.   enquanto a noite dorme e o dia é um lugar obrigatório de existir.

hoje descanso o teu nome.   desabito o odor macerado das palavras para o  esquecimento nas minhas mãos.   convoco o sono.   ou um verbo que apague a respiração das águas .  o  inconfesso lugar onde resistes.

 

ft: el paso